Canal anti-fake news do Ministério da Saúde tem 10 mil dúvidas em 11 meses

26/07/2019

O avanço da disseminação de mentiras envolvendo vacinas, dietas supostamente milagrosas e remédios transformou as redes sociais e o WhatsApp em caso de saúde pública -- nesta semana, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, chegou a culpar o avanço de informações falsas pelo surto de sarampo na cidade. Não é por acaso que, desde o ano passado, como se combatesse uma doença "transmitida" pela internet, o Ministério da Saúde tem atuado diretamente para identificar e combater informações falsas nas redes sociais e no WhatsApp.

No fim de agosto de 2018, a pasta criou o Canal Saúde Sem Fake News, um número de WhatsApp para que qualquer pessoa possa confirmar se uma informação recebida pelo aplicativo ou em redes sociais é verdadeira ou não. Em 11 meses, o ministério recebeu 10.034 mensagens -- uma por hora, em média. Cerca de 90% delas foram respondidas (veja aqui como mandar uma informação para o Ministério da Saúde). Vacinas e campanhas de vacinação estão entre os assuntos mais citados nas mensagens. De cada cinco respondidas, uma foi sobre esses temas, segundo dados divulgados pelo ministério. Dietas que prometem curar doenças, denúncias sobre supostos riscos de medicamentos e dúvidas sobre o programa Brasil Sorridente, de saúde bucal, também aparecem entre os principais tópicos do material que chega pelo WhatsApp.

Já nas redes sociais, o ministério monitora diariamente milhares de menções a vacinas e tratamentos, entre outros assuntos do escopo da pasta. De março de 2018 até este mês, o monitoramento identificou 511 focos de notícias falsas sobre saúde.

"A gente chama de foco porque pode ser uma publicação que tem muito compartilhamento, e o que circulou a partir daquilo é considerado uma coisa só", diz Gabriela Rocha, coordenadora de redes sociais do ministério.

O combate aos focos varia de acordo com o caso. Segundo Gabriela, a equipe de redes sociais avalia se é o caso de fazer uma intervenção direta, falando com a pessoa que espalhou uma informação falsa, ou se vale aproveitar o assunto para fazer um post nas páginas do ministério. "Mas se a pessoa entrou em contato com a gente, ela vai receber algum tipo de resposta", afirma.

Há casos, no entanto, em que a avaliação é de que simplesmente não adianta tentar explicar.

"A gente percebe, no dia a dia, que não adianta ficar brigando muito com quem já discorda. Se essa informação está circulando em um grupo antivacina do Facebook, não adianta o Ministério da Saúde ir lá, intervir e falar que é mentira, porque dentro daquele grupo o Ministério da Saúde não é uma fonte confiável de informação", conta Gabriela.

Mentiras prejudicam vacinação

No caso específico da vacinação, os grupos antivacina no Facebook e falsos especialistas em saúde que publicam vídeos no YouTube são alguns dos principais disseminadores de informações falsas, explica Gabriela. Também há casos de pessoas que, por trás de perfis falsos, tentam desinformar publicando comentários nos próprios posts do Ministério da Saúde.

 

Segundo a coordenadora de redes sociais, quem espalha fake news sobre vacinas tenta se justificar de várias formas: cita estudos antigos que não são corretos; fala em teorias da conspiração, como supostos complôs da indústria farmacêutica; e menciona casos isolados de reações físicas que não necessariamente têm relação com vacinas.

Gabriela também explica que a disseminação de informações falsas sobre saúde segue alguns padrões. Em alguns casos, elas acompanham os assuntos que estão aparecendo na mídia. Em outros, aparecem, somem e reaparecem.

"A gente recebe a mesma fake news inúmeras vezes. Uma que vem com frequência é a de que o Ministério Público suspendeu a vacina contra o HPV no Brasil, o que é uma mentira."

Outra situação é a reciclagem da mentira. "Às vezes uma fake news antiga, que já tinha sido desmentida, é atribuída a outra pessoa e volta a circular."

Os efeitos das mentiras no mundo virtual já estão sendo sentidos no mundo real. Em junho, a Folha noticiou que os índices de imunização de sete vacinas infantis ficaram abaixo da meta em 2018. Um dos possíveis motivos para isso é justamente o avanço de informações falsas sobre vacinas. A OMS (Organização Mundial de Saúde) listou a relutância em se vacinar como uma das dez principais ameaças para a saúde no mundo em 2019.

Para Gabriela, antes de passar uma mensagem para frente, as pessoas precisam buscar informações sobre saúde em fontes sérias, como as redes sociais do Ministério da Saúde.

"Há estudos sobre redes sociais mostrando que uma notícia falsa tem muito mais impacto que a verdadeira. Se você encaminha uma notícia falsa para o grupo da sua família que tem 20 pessoas, mesmo que você avise depois que ela é falsa, não é a mesma coisa."

Fonte: UOL

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