Covid-19 ameaça afetar saúde e economia por muito tempo

25/08/2020

Antes de Daniela Alves contrair covid-19, em março, a londrina de 31 anos fazia regularmente horas-extras em seu trabalho para acelerar sua carreira como projetista de aplicativos móveis. Agora, ela diz que o cansaço persistente reduziu sua produtividade à metade.

 

“Eu era uma fera antes, mas agora as coisas mudaram”, diz Alves pelo Zoom, fazendo pausas para renovar o fôlego ou tossir. “Não estou capacitada fisicamente, e estou encarando a vida de uma maneira diferente.”

 

Alves disse que precisa se afastar três meses do trabalho mesmo após ter passado por uma infecção “branda” que não exigiu hospitalização. Os efeitos prolongados da covid-19 a incluem em uma população cada vez maior de sobreviventes que ficaram com a saúde debilitada, que representam outra dimensão traiçoeira da pandemia.

 

Sabe-se agora que a Sars-CoV-2 deixará uma parte dos mais de 23 milhões de infectados com uma multiplicidade de deficiências físicas, cognitivas e psicológicas, como cicatrizes nos pulmões, fadiga pós-viral e comprometimento crônico do coração. Não se sabe ainda o impacto disso no sistema de saúde e na população em idade ativa.

 

Esse ônus poderá se estender o impacto econômico da pandemia por gerações, elevando seu custo mundial sem precedentes - que estudiosos da Universidade Nacional Australiana estimam que pode alcançar US$ 35,3 trilhões até o fim de 2025, enquanto os países tentam deter a propagação do vírus.

 

“A conclusão é de que as consequências sobre a saúde física, de longo prazo, são muito graves para o bem-estar das pessoas, e em termos econômicos”, disse Hannes Schwandt, professor na Northwestern University. “Mas ainda não sabemos o suficiente sobre ela.”

 

Embora não esteja claro como muitos sobreviventes se tornam “pacientes de longo prazo, um estudo de sintomas de covid-19 no Reino Unido, com mais de 4 milhões de pessoas, detectou que 1 em cada 10 ficam doentes por ao menos três semanas. Pessoas que contraíram casos brandos da doença têm maior tendência a apresentar uma série de sintomas “estranhos” que vêm e vão durante um período mais longo, segundo Tim Spector, professor de epidemiologia genética do King’s College London, que liderou o estudo.

 

“Quanto mais aprendemos sobre o coronavírus, mais esquisito ele fica”, disse Spector.

 

O quadro clínico que ainda está em evolução, a falta de acompanhamento de pacientes e os dados incompletos sobre o número de pessoas que sofrem com a covid-19 tornam difícil prever as consequências econômicas e para a saúde pública da pandemia a longo prazo, diz Christopher J. Murray, diretor do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington, em Seattle.

 

“Há o suficiente para sugerir que essas consequências são consideráveis, e isso é algo que começamos a tentar medir”, disse Murray, que estuda o custo global de doenças há quase 30 anos.

 

Essa informação será crucial para antecipar e financiar as necessidades de cuidados de saúde, disse Thomas File, presidente da Infectious Diseases Society of America. “Se olharmos para as consequências de médio prazo, já vemos isso” nos pulmões, no coração, nos sistemas neurológico e psicológico, disse. “Isso representará um fardo significativo ao sistema de saúde nos próximos anos.”

 

O impacto econômico será muito maior se os sobreviventes mais jovens enfrentarem décadas de incapacitação relacionada ao coronavírus, disse Olga Jonas, ex-consultora econômica do Banco Mundial que estuda o impacto da doença na Universidade Harvard.

 

Até agora houve pouco reconhecimento dos efeitos nocivos da covid-19 sobre os adultos mais jovens, disse Hannah Wei, uma paciente com sequelas, de 30 anos, no Canadá que ajuda outras vítimas por meio do grupo de apoio a sobreviventes Body Politic. Uma análise das respostas de 640 pacientes coletadas pelo grupo em abril e maio revelou que “a recuperação é volátil, inclui recaídas e pode levar seis ou mais semanas”.

 

“No começo, muitas pessoas do meu grupo etário não foram submetidas aos testes, então fomos especialmente negligenciadas pelo sistema e não aparecemos nos números oficiais”, disse Wei, que teve covid-19 em março. “Agora, vemos muitas dessas se tornarem ‘pacientes de longo curso’.”

 

 

 

Mesmo que tais casos sejam identificados, ainda assim não há garantia de que as consequências econômicas serão quantificadas adequadamente, disse Janet Currie, da Universidade de Princeton. Ela cita, por exemplo, as pesquisas sobre emprego não costumam perguntar se as pessoas têm alguma incapacidade.

 

Fonte: Valor Econômico

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