Crise requer reforço de leitos e equipamentos hospitalares

13/03/2020

Embora haja consenso entre especialistas sobre a eficácia das medidas de vigilância tomadas pelo Ministério da Saúde e por autoridades regionais para manter sob controle a propagação do coronavírus, o país pode ter problemas em caso de aumento expressivo do número de infectados ou de eventual corrida da população às unidades públicas de pronto-atendimento. Dessa forma, defendem eles, aumentar a oferta de leitos e outros equipamentos para situações mais complexas é prioridade agora.

 

Médicos ligados a grandes hospitais e centros de estudo avaliam que a longa crise econômica e as medidas de restrição fiscal fragilizaram o sistema público de saúde, inclusive com a redução dos leitos disponíveis. Mas também observam que o país tem experiência na gestão de crises e equipes técnicas capazes de lidar com o surto, classificado ontem pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como pandemia. Nesse cenário, não haveria razão para alarme.

 

Professor do Departamento de Epidemiologista da Escola de Saúde Pública da USP, Eliseu Alves Waldman disse ao Valor que a disponibilidade de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), entre equipamentos mais caros na área de saúde, sabidamente não é ideal. “Essa emergência que estamos enfrentando tem a implicação que é minimizar o número de óbitos e mitigar a transmissão, o que efetivamente significa a distribuição alongada dos casos para evitar um forte pico, com isso sobrecarga sobre o sistema de saúde. Não temos vacina, então esse será o caminho para não arder muito”, disse ele.

 

Já se espera aumento do número de casos nas próximas semanas, o que justificaria para os médicos, se de fato houver agravamento, um passo adiante no conjunto de ações governamentais de prevenção e vigilância, que seria uma campanha nacional com orientações direcionadas à população. Avanço em relação às ações administrativas tomadas até agora, a medida poderia resultar em busca maior pelos serviços de saúde.

 

Para ter uma ideia das articulações até agora, nas últimas 48 horas, o Ministério da Educação (MEC) enviou série de recomendações para as universidades federais quanto à transmissão do coronavírus. A pasta informou ao Valor que também está em diálogo com Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) e Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação) para disseminar as orientações. No comunicado aos dirigentes, o MEC informou que o Ministério da Saúde, por intermédio da Secretaria de Vigilância em Saúde, expediu recomendação para que se promova ações preventivas junto às universidades federais.

 

Segundo Hélio Bacha consultor técnico da Sociedade Brasileira de Infectologia e doutor pela Faculdade de Medicina da USP, a nova pandemia requer medidas extraordinárias de aparelhamento de hospitais. “Leitos de emergência devem ser criados para atender o novo desafio que a epidemia coloca”, ressaltou o epidemiologista.

 

Mas ele ponderou que só a partir da próxima semana as autoridades terão condições de definir os próximos passos das ações, até com medidas mais amplas como campanha nacional. “O pânico leva à desorganização social, que é prejudicial à eficácia de tudo o que vem sendo feito e planejado. Embora não esteja tão evidente, há alinhamento entre os agentes de saúde”, afirmou Bacha, que tem participado diariamente de comitês e reuniões sobre o tema.

 

Já causa incômodo também a falta de sinalização direta da autoridade econômica e do Executivo no sentido do provimento extraordinário de recursos, caso a crise se agrave. “Temos um sistema de saúde razoavelmente organizado, pessoal capacitado, experiência em gerenciamento de crises, boa vigilância em saúde e excelência em pesquisa. Mas nos últimos quatro, cinco anos houve fragilização do sistema público por questões políticas e econômicas. E o governo terá que ter agilidade em suprir de recursos para os próximos momentos”, afirmou Waldman.

 

Enquanto o ministro da Economia preferiu acalmar os investidores na segunda-feira, dizendo que o governo encara a situação com “absoluta serenidade”, e o presidente tenha negado a gravidade da crise, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse ontem, no Congresso, que convidará parlamentar a fazer parte do comitê que calculará os recursos necessários para combater o coronavírus. Segundo ele, há a previsão de liberação de R$ 5,1 bilhões das emendas do relator do Orçamento para medidas da área da saúde específicas para o combate à covid-19.

 

O Ministério da Saúde informou ao Valor em nota que, entre 2016 e 2020, o número de leitos de terapia intensiva no SUS passou de 22,9 mil para 26,2 mil no país. No Datasus, os leitos comuns de internação no país, caíram de 441,3 mil, em janeiro de 2016, para 435,3 mil, em janeiro deste ano.

 

Em relação à Covid-19, a pasta afirmou que tem tomado medidas que visam adaptar “a resposta do sistema brasileiro aos desafios impostos pela doença e a proteção da população, de forma proporcional e adequada a cada momento da doença no Brasil.” O Ministério da Saúde respondeu que já atendeu ao pedido de habilitação de 100 leitos e está em processo  de contratação de 1 mil leitos de terapia intensiva de forma emergencial. E informou ainda que ampliará a assistência na atenção primária para recepção de pacientes com Covid-19. Em relação à quantidade de kits disponíveis, a pasta não respondeu até a conclusão desta edição. (Colaborou Hugo Passarelli)

 

Fonte: Valor Econômico

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