Desinformação leva à queda de vacinação no Brasil

30/11/2020

No Brasil e no mundo, a cobertura vacinal da população tem caído ano após ano. A tendência de queda foi agravada em 2020, por causa da pandemia, com muitas pessoas tendo medo de sair de casa para ir ao posto de saúde. Na maioria dos Estados brasileiros, a campanha de multivacinação durante o mês outubro não atingiu nem 40% das crianças que deveriam comparecer – a meta era 90%. O governo paulista decidiu prorrogar a campanha até 13 de novembro, para tentar alcançar mais gente.

 

A desinformação sobre o tema é apontada como uma das causas da queda. “O fenômeno mundial de hesitação em vacinar está ligado às fake news. Os grupos antivacina são profissionais na comunicação”, diz Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. Segundo ela, 50% das mensagens antivacina nas redes sociais são importadas dos Estados Unidos ou Europa, traduzidas para o português. E ela garante que é mais seguro ir ao posto de saúde do que ir a um bar.

 

Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Instituto Questão de Ciência, diz que o movimento contra vacinação é muito organizado e, no Brasil, é patrocinado por empresas que promovem curas naturais. Para combater a desinformação, ela incentiva cientistas a participar do TikTok. “Precisamos ocupar o espaço das mídias sociais com informação de qualidade, mas de forma divertida e informal, que estimule a interação”, diz.

 

Não é só a propagação de notícias fraudulentas que tem afastado as pessoas do posto de vacinação. “Há questões estruturais. O Programa Nacional de Imunizações ficou sem coordenador por muito tempo”, cita Pedro Vasconcelos, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, embora ressaltando que o PNI é muito respeitado.

 

“O horário restrito para dar vacinas é um problema que as secretaria de saúde não resolvem. Tem populações que vivem no interior, em áreas rurais, que só vão para as cidades nos fins de semana, quando o posto está fechado. Em Minas Gerais, essa falta de acesso foi crucial para a propagação da febre amarela”, lembra.

 

Alberto dos Santos de Lemos, infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz, defende que, além de atenderem fora de horário comercial, é importante que os agentes de saúde levem vacinas a comunidades afastadas, montem postos volantes. Mas ele acredita que a queda vacinal também reflete a diminuição da importância da ideia de coletividade. “A vacina é para cada um e para todo mundo. Quando me vacino, protejo o outro também. O individualismo atual contribui para a queda de cobertura.”

 

Importância de combater a pólio

As vacinas já foram capazes de extinguir do planeta uma doença, a varíola, e estão prestes a acabar com mais uma, a poliomielite. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o vírus ainda está em circulação apenas no Afeganistão e Paquistão. Enquanto o fim não se dá em todo o globo, nenhum lugar pode se pode descuidar da vacinação. “Tem estudos que procuram o vírus no meio ambiente. Já foi detectado no esgoto em Campinas, perto do aeroporto, e em Santos. Mas ainda que o vírus seja reintroduzido, a pessoa vacinada está protegida”, explica Akira Homma, assessor científico de Bio-Manguinhos/Fiocruz.

 

A queda da vacinação de crianças contra a pólio provoca extrema preocupação entre os especialistas. “O Brasil já perdeu o certificado de erradicação de sarampo, por baixa cobertura vacinal”, alerta Leonardo Weissmann, presidente da Comissão Pólio Plus - Distrito 4420 de Rotary.

 

Por mais que as injeções provoquem desconforto, é um mal necessário, ao menos por enquanto. “Se você tem um bebê que tem de levar três picadas na perna, claro que você fica com pena. Por isso temos vacinas combinadas, com até seis antígenos na mesma picada, o que é muito mais cômodo”, afirma Luiza Helena Falleiros, membro do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.

 

A evolução da produção de vacina até agora já permitiu menos injeções, mas as pesquisas continuam para que, no futuro, novas vias de administração deixem a proteção ainda mais confortável. “Ainda temos que avançar, mas há trabalhos para que elas sejam por esparadrapos na pele, por contato, em vez de injetável”, conta Homma.

Fonte: Estadão

Todos os direitos reservados 2002 - 2020. Federação Nacional dos Estabelecimentos de Serviços de Saúde.
fenaess@fenaess.org.br 
SRTVS - Quadra 701 - Bloco "E" - Lotes 2/4 - Edifício Palácio do Rádio II - Salas 227/228
Telefone - 61-3202.4323 e Fax - 3202.6494 
Asa Sul - Brasília/DF - Cep: 70340-902